Author
William Anthony
Share
O ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil tem mexido diretamente com a demanda por proteção patrimonial das obras em execução. Projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que o setor deve consolidar uma movimentação de R$ 277,9 bilhões em 2025, alta de 4,2% em relação aos R$ 266,8 bilhões de 2024. Os vetores são conhecidos: Novo PAC, parcerias público-privadas, concessões e contratos amparados pela Nova Lei de Licitações. Em meio a esse fluxo, o Seguro de Riscos de Engenharia ganhou status de peça operacional.
Os números do mercado segurador acompanham o movimento. Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), a modalidade registrou R$ 1,116 bilhão em prêmios emitidos em 2024, crescimento de aproximadamente 12% sobre os R$ 986 milhões de 2023. Até julho de 2025, o seguro já havia somado R$ 840 milhões em prêmios. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) projeta incremento de 8,2% em 2025 no segmento de “Danos e Responsabilidades”, que engloba o produto.
O que protege, na prática, o seguro de riscos de engenharia
A modalidade visa cobrir o ciclo da obra, e não apenas eventos pontuais. Atende construções residenciais, comerciais, industriais, reformas e ainda instalações e montagens. A janela de contratação tem regra clara: a apólice pode ser firmada antes do início da obra ou ao longo da execução, desde que o avanço físico não tenha ultrapassado 40% de conclusão.
“O seguro de riscos de engenharia é voltado para a proteção de obras, reformas, instalações e montagens, sejam residenciais ou comerciais. Pode ser contratado antes do início da obra ou ao longo dela, desde que não tenha ultrapassado 40% de conclusão. Acima disso, não há aceitação. A contratação pode ser feita tanto por pessoa física quanto jurídica”, explica Jéssica Nunes, especialista em riscos de engenharia da Genebra Seguros.
A executiva destaca que o produto se diferencia justamente pela amplitude. “A diferença em relação a outros seguros está na cobertura. O seguro de riscos de engenharia cobre toda a obra, do início ao fim, abrangendo praticamente todo tipo de dano à estrutura, aos equipamentos e até mesmo a terceiros. Já outras modalidades, como o seguro de equipamentos, protegem apenas máquinas e equipamentos, e o seguro de responsabilidade civil cobre apenas danos a terceiros, com escopo restrito”, afirma.
Coberturas básicas e o que entra como adicional
A cobertura básica responde por eventos clássicos do canteiro de obras: incêndio, explosão, roubo, furto e riscos da natureza, com destaque para vendaval, granizo, raio e alagamento. A partir desse núcleo, a apólice acontece sob medida, conforme o porte e o perfil do projeto.
Entre as coberturas adicionais mais demandadas, segundo Jéssica Nunes, estão erro de projeto, desentulho, manutenção ampla, cobertura de incêndio após o término da obra, despesas de salvamento e contenção de sinistros e responsabilidade civil. “Essas coberturas adicionais são o que aproxima a apólice da realidade do empreendimento. Erro de projeto, por exemplo, é um risco silencioso que pode aparecer em qualquer fase da execução. Desentulho e contenção de sinistros são gastos que aparecem logo após o evento e que, sem cobertura específica, recaem direto sobre o tomador”, observa.
A escolha de quais cláusulas adicionais incluir depende da análise de risco da operação, das condições do terreno, do método construtivo e do envolvimento de terceiros no entorno da obra.
Construção civil e montagens industriais: dois recortes do mesmo produto
Embora costuradas sob a mesma denominação, as apólices voltadas à construção civil e às montagens industriais respondem a momentos diferentes do ciclo da obra. Saber qual recorte se aplica é parte do desenho técnico da contratação.
“O seguro de riscos de engenharia para construção protege contra prejuízos que possam ocorrer durante a realização da obra ou reforma. Já o seguro de riscos de engenharia para montagens industriais protege contra prejuízos que possam ocorrer durante uma instalação ou montagem, com riscos próprios dessa etapa”, afirma Jéssica Nunes.
Essa distinção fica mais relevante em projetos de grande porte, em que obra civil e montagem industrial caminham em fases sucessivas, exigindo coberturas que dialoguem entre si para evitar lacunas.
Sinistro durante a obra: o efeito financeiro que a apólice neutraliza
Contudo, a função econômica do seguro fica mais clara em situações de sinistro. Sem cobertura adequada, o impacto de um incêndio, alagamento ou erro de execução recai integralmente sobre os participantes do empreendimento, com efeito direto sobre o cronograma e o orçamento.
“O seguro garante que, caso ocorra um acidente durante a realização da obra ou reforma, nenhuma das partes envolvidas precise arcar sozinha com 100% das despesas. Isso preserva o cronograma, mantém o resultado financeiro do empreendimento e evita que o prejuízo se desdobre em outras frentes do projeto”, afirma a especialista.
Paralisações e lucro cessante: o ângulo menos lembrado da apólice
Em obras de médio e grande porte, a paralisação após um sinistro pode gerar prejuízo financeiro tão relevante quanto o dano material em si. Atrasos em entregas, multas contratuais e perdas a terceiros entram no cálculo de quem analisa risco de obra.
“Há diversas formas de o seguro mitigar prejuízos em caso de paralisação decorrente de evento coberto pela apólice. Se ocorrer incêndio ou acidente com terceiros, os prejuízos têm cobertura pela seguradora. E se a paralisação causar atraso e perda financeira a terceiros, a cobertura de responsabilidade civil por lucro cessante a terceiros responde por isso”, detalha Jéssica Nunes.
Esse desenho coloca o seguro de riscos de engenharia em posição complementar a outras modalidades comuns em obras públicas e privadas. O Seguro Garantia, por exemplo, registrou avanço de 25,07% em prêmios totais nos sete primeiros meses de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Susep. Desde a sanção da Nova Lei de Licitações, a expansão de Seguro Garantia e Seguro de Riscos de Engenharia somados ultrapassou 66%, passando de R$ 3,722 bilhões para R$ 6,202 bilhões.
O timing da contratação importa</h3>
Assim sendo, a regra de aceitação até 40% de execução tem efeito prático: deixa para trás obras já avançadas que podem trazer riscos pré-existentes não declarados. Para o tomador, isso reforça a necessidade de tratar a contratação do seguro como item de planejamento, e não como providência de última hora.
Por isso, Jéssica Nunes observa que essa antecipação também muda o desenho da apólice. “Quanto antes a obra entra em apólice, mais qualificada fica a análise de risco e mais ajustadas ficam as coberturas adicionais. A análise técnica feita no início do projeto permite identificar pontos de atenção que, se descobertos depois, podem inviabilizar a inclusão de algumas coberturas”, diz.
Perspectiva de mercado em 2026
Com o ciclo de infraestrutura em curso, contratos baseados na Nova Lei de Licitações e a continuidade dos investimentos previstos pelo Novo PAC. A tendência é de que o seguro de riscos de engenharia mantenha trajetória de crescimento. Para o tomador da apólice, o cenário cobra leitura mais técnica do produto, com atenção ao porte da obra, ao método construtivo, ao envolvimento de terceiros e à fase em que a contratação acontece. Para o setor segurador, o desafio passa por sustentar capacidade de subscrição em um mercado que demanda, ao mesmo tempo, agilidade e profundidade técnica.
Ir para o conteúdo