No início do ano projetamos como seria o desempenho econômico para 2020. Conforme apontado na última carta de conjuntura, este é o exercício que devemos realizar para balizar nossas decisões. Evidentemente, não se trata de uma pergunta com apenas uma resposta, tampouco “certeira”, uma vez que depende de muitos condicionantes, que podem alterar as expectativas e, consequentemente, o desempenho econômico para 2020. O caso do coronavírus é um exemplo disso. Como não sabemos (exatamente) quais os seus impactos sobre a economia, criamos uma expectativa negativa sobre o comportamento futuro. Isso pode ser explicado pela restrição no fluxo de pessoas em cidades importantes da China. Logo, é natural esperar uma queda no volume do comércio, serviços e, consequentemente, no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês.

Para o Brasil, pode representar uma diminuição no volume de exportação na medida em que aquele país é o nosso principal parceiro comercial. Nesse sentido, tentar construir um cenário vindouro não é uma tarefa simples, muito menos precisa. De todo modo, empregamos alguns indicadores que auxiliam na construção de cenários futuros, os quais compartilhamos com os leitores nesta terceira carta de conjuntura.

Conforme mostramos na edição anterior, o mercado projeta um crescimento maior para este ano do que para 2019. Isso pode ser explicado, em parte, pelo desempenho dos indicadores antecedentes. Como o próprio nome diz, o seu comportamento antecede o movimento da economia, ou seja, quando o indicador começa a crescer no primeiro trimestre do ano, outros setores da economia também começam a crescer, porém nos trimestres seguintes. Um exemplo de indicador antecedente é a produção de papelão. Pela sua natureza, historicamente, o papelão antecipa o que pode acontecer com a economia, pois antes do produto ser finalizado na indústria, o papelão já deve estar na fábrica esperando para embalar o bem. Além disso, o papelão envolve vários setores da economia (alimentação, indústria, serviços, etc). Assim, quanto maior a produção de papelão, provavelmente, melhor será a atividade econômica.

Reunimos o desempenho do papelão no gráfico abaixo. Nele, percebemos que a produção de papelão caiu até o final de 2016, mas nos primeiros meses de 2017 voltou a crescer. Não por acaso, o PIB se recuperou em 2017.

Gráfico 1 – Produção e expedição de papelão ondulado (toneladas, média móvel 12 meses)

grafico-producao-papelao-ondulado

Fonte: Ipeadata.

E o mesmo movimento pode ser observado em outro indicador muito empregado para realizar projeções: o fluxo de veículos pesados (que transportam produtos finais e matéria-prima).

Gráfico 2 – Fluxo de veículos pesados pedagiados (1999=100, média móvel trimestral)

grafico-fluxo-veiculos-pesados-pedagiados

Fonte: Ipeadata.

Novamente, até outubro de 2016 o fluxo caiu, porém no final de 2016 e início do ano seguinte, voltou a crescer, antecipando (como o papelão) o crescimento do PIB em 2017.

E as projeções?

Quando analisamos os gráficos para o final de 2019, percebemos que ambos estão com um desempenho acima de 2016, 2017 e 2018. Além disso, comparando o desempenho anual de 2018 com 2019, temos um resultado maior que nos anos anteriores (o papelão cresceu 1,6% em 2019 contra 1,1% em 2018, já o fluxo de veículos pesados cresceu 4,1% em 2019 frente a 1,3% em 2018).

Evidentemente, não podemos empregar apenas dois indicadores para realizarmos uma projeção da economia. De qualquer forma, o leitor teve uma pequena amostra de como podemos construir um cenário futuro. Importante destacar que geralmente empregamos uma série de indicadores além dos apontados acima, assim como modelos estatísticos para afinar as previsões.

Portanto, olhando para o que aconteceu em 2019 e comparando com 2018, sabemos que teremos um ano melhor pela frente. Temos um longo caminho a percorrer, porém estamos em uma trajetória de crescimento maior que nos últimos anos e isso é a principal notícia para o início de 2020, a volta do PIB acima dos 2,3%.